Verdade Peripatética Contemporânea



Verdade Peripatética Contemporânea - Danny Marks


Há um velho adágio que diz que “velhas soluções não funcionam para velhos problemas”, ou qualquer variação do mesmo conceito que se estende por inúmeras situações. Isso é um fato irrefutável pelo simples conceito lógico, se há um problema antigo, todas as soluções tentadas anteriormente não deram conta de sua solução, ou não haveria um problema, ou ele seria algo insolúvel no todo e caberia apenas a contenção de seus efeitos ou redução de sua abrangência a níveis aceitáveis. Em qualquer um desses casos a persistência do problema demonstraria a incapacidade de as repostas encontradas darem conta de sua eliminação.

Quando crio o termo Verdade Peripatética Contemporânea, o que apresento é justamente esse conceito aplicado a uma questão que tem sido desvelada nas ultimas décadas e que já foi descrita como “Verdade Líquida”, “Neo Verdade” ou até mesmo “Pós Verdade”, e que se referem ao mesmo problema da manipulação dos fatos de forma dialética para apresentar uma “não verdade” que ainda preserve traços de verossimilhança suficiente para cumprir o seu objetivo de desinformar, rebatendo um conceito antigo que diz que “contra fatos não há argumentos”.

Sim, contra fatos não há argumentos, mas quando os fatos se alinham em uma apresentação narrativa que induz a uma percepção diferenciada dos fatos em questão, o que se tem é uma argumentação baseada em arranjo factual que pode sim apontar na negação até mesmo do próprio fato através de recortes bem feitos e alinhados de forma descontextualizada contaminando a percepção da verdade apresentada pelos fatos. É justamente essa narrativa que pode distorcer os fatos e gerar argumentos contrários até mesmo a eles, ao menos em bases dialéticas, ou seja, através do discurso.

O problema é que por décadas somos constantemente insuflados, aconselhados, a acreditar na autoridade discursiva apresentada por determinados profissionais que deteriam a capacidade de compreensão profunda de determinados fatos. A sabedoria de vida dos mais velhos foi substituída pela sabedoria acadêmica dos que se apoiam em décadas de estudos e análises que são ensinadas para determinados indivíduos que, apesar de sua idade, sustentariam uma sabedoria mais antiga e comprovada que todas as gerações vivas. Assim cria-se o edifício do conhecimento com suas bases plantadas fundo na história social, na pesquisa e na análise dos efeitos para ir ganhando mais poder discursivo conforme novos andares vão sendo acrescidos.

O problema é que com o advento das comunicações em massa e da disseminação de discursos legítimos, há a formação de distorções, intencionais ou não, que ainda carregam a suposta autoridade do discurso original, mas encaminham em um sentido oposto ao que deveriam. Essa distorção é que passou a ser chamada de “pós verdade”, por nascer de um conceito válido e reconhecido e ser torcido e distorcido de forma a atender interesses argumentativos particulares que podem ser contrários até mesmo a fonte que os originou. Pior que por serem distorções intencionais adquirem características sedutoras, por se basearem parcialmente na verdade, mas com uma superficialidade e direcionamento que agrada ao público, gerando fatos distorcidos que acabaram sendo chamados de Fake News, ou de notícias (fatos) mascarados (fakes).

O que nos trás ao momento atual em que somos bombardeados constantemente com fatos que podem ou não ser confirmados como verdadeiros em sua integralidade, mas que pelo simples fato de existirem colocam em xeque a própria verdade que os fundamentou, contaminada pelas interpretações que foram acrescidas e que tornam a verdade factual em verossimilhança narrativa, uma versão particular que lembra de alguma forma a verdade, mas que pode ser tão distante dela que quase se torna uma mentira de difícil detecção.

Os sofistas eram sábios itinerantes (peripatéticos) que se especializavam na ciência e na arte da Retórica, que consistia em comunicar de forma persuasiva através de técnicas bem estruturadas alguma coisa que fosse interessante ao público e/ou ao seu apresentador. A retórica tem sido de extrema importância na arte da diplomacia para diminuir conflitos e estabelecer acordos sem que seja necessário o emprego de força, usando a inteligência e a apresentação de argumentos de forma a substituir outras formas mais brutais de solução. Isso tem sido feito ao longo dos séculos com diferentes graus de qualidade e legitimidade, moldando as civilizações e fundamentando as outras ciências e seus discursos. A questão é que, por ser basicamente uma ferramenta, a intencionalidade do seu uso é dada pelo agente, e seus efeitos vinculantes se dão exatamente pela habilidade deste em usar os recursos oferecidos pela ferramenta em uso.

É o que foi visto na primeira assembleia da ONU quando diversos líderes globais usaram o poder da Retórica para apresentar narrativas que se distanciam das verdades conhecidas de forma a criar não uma pós verdade, mas o que eu chamo de Verdade Peripatética por se basear em uma verdade em construção, com fatos que não podem ser consolidados por ainda estarem acontecendo e não terem sido totalmente apresentados dificultando sua apreensão completa. Essa verdade peripatética guarda a verossimilhança, a aparência da verdade, por se fundamentar em coisas facilmente comprováveis, mas segue caminhos retóricos de forma que os discursos se corrompem e levam em sentido inverso ao que deveriam pelo simples fato de não haver uma conclusão final que possa confronta-los.

O mais interessante é o uso que é dado para algumas verdades peripatéticas que apresentam fatos inegáveis por ambos os lados conflitantes, mas de uma forma invertida, onde a vitima se torna o agressor. Por exemplo, é possível dizer-se que há uma conspiração internacional que visa desestruturar as instituições de um país e desarticular a democracia deste de forma a atender interesses de outros adversários políticos que estariam infiltrados dentro dessas mesmas instituições e que está sendo combatida por valorosos defensores da pátria e das instituições com o risco pessoal. Esse é o fato incontestável, mas se for dito justamente pelo conspirador acusando o outro lado, causa uma confusão enorme, porque não há como negar que o fato é real, existe sim uma conspiração e sim há defensores que lutam contra ela, mas quem é o conspirador e quem é o defensor? Isso só se descobrirá quando as coisas clarearem de forma suficiente para consolidar os fatos e se combater os efeitos, mas até lá, a própria confusão causada serve como um fator caótico que colabora para a desestruturação e posterior reformulação da narrativa dos vencedores, sejam quais forem.

Esse movimento tem ganhado força por sua atuação estruturada e a impossibilidade de contê-lo a tempo, exceto com a inserção de mais informações que causam desgaste e se confundem com as manipulações do próprio movimento da Verdade Itinerante. Quando os efeitos se consolidam, o caos destrutivo que foi promovido já tem sequelas que serão usadas para comprovar até mesmo o discurso que provocou os danos e que alegava que isso iria acontecer. Veja o caso da pandemia, pode-se dizer que o uso de determinadas práticas provocará inúmeras mortes desnecessárias, mas se essas práticas forem abolidas e houver mortes inevitáveis, então o discurso da Verdade Peripatética será de que foram provocadas justamente porque outras práticas não foram seguidas e os efeitos previstos ocorreram como havia sido divulgado, como por exemplo os danos à economia.

A questão é que a Verdade Peripatética se fundamenta na impossibilidade de conter o caos de que se alimenta, justamente porque para conter o caos é preciso o dobro dos esforços no restabelecimento da ordem e sempre haverá perdas que serão computadas pelos fomentadores do caos às medidas que visavam minimizar o caos criado. Ou seja, não há como impedir as perdas, apenas minimiza-las uma vez que o problema já está em andamento, e justamente por não haver uma solução absoluta, gera-se a dúvida se as medidas de contenção estão realmente corretas ou se são elas que ajudam a provocar ainda mais perdas. Assim os que se alimentam do caos surfam a onda de desinformação manipulando verdades parciais transitórias para demonstrar que estão certos quando na verdade são os que criaram o problema com o qual estão avançando em seus interesses.

O que pode ser feito para deter esse movimento da Verdade Peripatética Contemporânea? A meu ver insistir em impedi-lo de avançar, reforçando sempre mais os fatos e investindo em mais informação clara e simples de ser compreendida gerando luzes que obliterem, diminuam, os efeitos das sombras produzidas e reforçando com os fatos comprovados as Instituições e não os agentes investidos por estas de seu poder. São as Instituições que precisam ser saneadas dos infiltrados provocadores do caos, usando os métodos já consolidados e de forma clara e eficiente para que não percam o pouco poder que ainda possuem, percebendo que haverá necessariamente uma perda significativa, uma destruição inevitável de recursos, mas conscientes que não havendo qualquer oposição a isso, as perdas serão não apenas maiores, mas irreversíveis. É um futuro sombrio que temos pela frente, mas se a luz for forte o suficiente, haverá um momento de reconstrução e, quem sabe, aprenderemos a evitar que o problema ressurja criando soluções novas para algo muito antigo, o caos absoluto.

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Blogger Social Icon
  • Google+ Social Icon

Página do Escritor Danny Marks - FC& Fantasy - Criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now