Série Fundação - uma resenha preliminar por Danny Marks

Antes de iniciar esta resenha devo dizer que li a Saga Fundação mais de dez vezes, todos os volumes. Alguns um pouco mais porque a cada novo livro lançado, relia os anteriores. Já tive e já me desfiz de boa parte dos livros do Isaac Asimov ao longo de décadas, alguns preservo até hoje. Me tornei escritor porque Asimov me fez acreditar que era possível uma simples criança sonhar além dos limites da imaginação e tornar real algo que mais ninguém acreditava ser possível. Hary Seldon é sem dúvida o melhor alter ego de Asimov, na minha opinião. E isso também influenciou a minha trajetória como escritor.

Quando se analisa uma obra é preciso ir além do texto, é preciso mergulhar na vida do autor e no seu momento histórico. É preciso compreender não apenas os conceitos e preconceitos apresentados no seu trabalho, nenhum texto é inocente e nenhum autor é totalmente isento quanto aos personagens que dá à luz, mas muito do que é dito é apenas uma pista do que é ocultado, a ponta de um iceberg muito maior. E é por esse aspecto que quero falar dos dois capítulos iniciais da adaptação feita da Saga Fundação pela Apple.

Asimov era um homem que amava a Literatura e a Ciência mais do que amava as pessoas e o mundo. Agorafobico (tinha medo de lugares abertos) adorava escrever no sótão de sua casa, onde vislumbrava não apenas mundos futuros, mas civilizações que se expandiam pelas galáxias e ganhavam o espaço de forma a torna-lo pequeno diante da grandiosidade do espirito humano. Compreendia que o potencial para a glória era o mesmo que para o horror, estava na base da formação da civilização humana e alcançar um, não significava excluir o outro, pelo contrário, ambos pareciam caminhar lado a lado, sendo que as pessoas preferiam, ou melhor, escolhiam ver apenas o que lhes interessava.

Ele disse em várias entrevistas que a base que usou para começar a Saga Fundação foi o Império Romano, e isso fica evidente na adaptação cinematográfica. O colossal império é retratado em toda a sua glória e beleza, mas também em toda a sua decadente tragédia, através dos símbolos e dos lideres que crescem por entre as fraturas do que nasceu para ser imenso, mas se descuidou dos detalhes. Essa deve ser uma das chaves de leitura para se compreender a Saga e a adaptação feita a partir dela. Símbolos e detalhes que mais ocultam que revelam, que apontam um caminho determinístico, matemático, calculado, mas que depende de equações menores que tem vida própria e interesses diversos.

A psicohistoria é capaz de calcular a trajetória de populações imensas e alterar seus rumos através de inserções mínimas e pontuais, mas é incapaz de prever o comportamento de pequenos grupos ou indivíduos. Eis a grande chave para compreender a obra e aprecia-la de uma forma melhor, um conceito que adaptei e usei em meus próprios livros sob o paradigma de que “ninguém é imprescindível, mas cada um pode ser fundamental para determinar os rumos do futuro”. Hari Seldon era um homem apenas, mas com a psicohistoria se tornou um agente de mudanças previstas e calculadas nos mínimos detalhes. Mudanças que dependiam de que determinados fatores aleatórios não escapassem do controle objetivo, a mão de ferro do império governando as decisões maiores, enquanto as menores escapavam por entre os dedos e ameaçavam todo o resto no longo prazo.

Não vou dar spoilers da Saga, até porque já ficou visível que a adaptação não vai mostrar as mesmas coisas que os livros, vai trabalhar no que não foi dito, de forma complementar. E isso vai desagradar aqueles que, talvez por preguiça mental, iriam querer ver reproduzida a história, como se a imaginação não fosse suficiente para vê-las reproduzidas no lugar certo. Uma boa adaptação deve se apropriar dos conceitos fundamentais que devem ser preservados, e isso não é tarefa fácil. Quem puder reparar em uma conversa aparentemente aleatória e desnecessária no segundo capítulo vai perceber que ali é dada a chave metalinguística que guiou os roteiristas nessa adaptação quando é perguntado que calculo devemos preservar se não temos sequer consenso na forma de contar. Pois é, o que pode ou não ser preservado e como fazer isso em uma adaptação necessária?

A Fundação projetada pela Apple é baseada na saga de Asimov, mas é diferente e ao mesmo tempo complementar, embora seja a mesma saga. Não quero me estender muito mais neste texto, apenas apontar algumas coisas básicas para que as expectativas não sejam desfavoráveis. Como escritor e pretenso discípulo de Asimov desejei muito ver como conseguiriam adaptar algo tão grandioso sem perder a sua essência. Desejo e medo, glória e horror, força e arte, calculo e sensibilidade, Asimov era um gênio em trabalhar com conceitos que aparentemente são antagônicos e demonstrar que, ao contrário da crença geral, ambos são necessários e indissociáveis. O gigante pode cair com uma pedra no lugar certo, o insignificante pode movimentar forças além da compreensão, o imprevisível e aleatório pode ser acolhido em um padrão compreensível e previsível.

Tenho que tirar o meu chapéu para os roteiristas e produtores desta série da Apple. Conseguiram não apenas mostrar de forma visual a grandiosidade e o horror do império, conseguiram criar uma linguagem simbólica e com tantas camadas que tornou possível capturar a essência da Saga Fundação em algo visual, diferente do original, complementar e ainda assim fiel a sua origem. Um épico em si mesmo que aponta um épico anterior, e vai além mostrando o que a Saga não privilegiou, o indivíduo e suas incertezas alterando o previsível conjunto muito maior e mais poderoso. Não que Asimov não tenha focado determinadas figuras, ele o fez, mas seu viés sempre foi o conceito que as regia e ia além de suas meras vidas. A série Fundação pretende mostrar o lado mais pessoal e como isso afeta o conjunto, cada drama encenado dentro de uma tragédia anunciada e calculada, mas oculta de todos que pudessem alterar os seus rumos, para que continuasse previsível.

Como fã incondicional de Asimov, como pretenso discípulo deste grande mestre, escritor e leitor, aplaudo de pé essa adaptação pelos motivos apresentados e a recomendo com ênfase. Não busque o original nela, não vai estar lá da forma que gostaria de ver, mas pode assistir a algo grandioso que terá também o seu horror e a sua tragédia, como previsto. E para aqueles que devem ter se perguntado por que diabos um fã tão grande do Mestre se livrou de boa parte dos livros dele, tenho que dizer que, assim como Asimov, compreendi há muito tempo que há coisas que não nos pertencem, apenas temos acesso a elas e devemos deixar que sigam seu rumo, despertando outras mentes se puderem, como fizeram com a nossa. Pessoas que não teriam acesso a esse conhecimento se tivéssemos sido egoístas de tentar segurar com mão de ferro o poder em nossas mãos. O poder que se esvairia por entre os dedos deixando apenas a decadência do nosso império particular.

Guardei apenas os livros que ainda me são caros demais para abrir mão, que um dia seguirão seu caminho quando não estiver mais aqui, talvez juntos com outros que tenha produzido pela inspiração que me deram. Assim como Hari Seldon não tentou criar um futuro para si, mas para todos que ainda viriam e que poderiam ter uma chance melhor de reconstruir o que havia sido maravilhoso e ir além. Assim como Isaac Asimov que deu o seu melhor sabendo que a sua própria mente já estava impregnada pela decadência da sociedade que habitava, mas arquitetou um plano para fornecer as ferramentas certas para os que viriam depois construir algo melhor. Foi por isso que doei meus queridos exemplares para bibliotecas públicas, e pelo mesmo motivo continuo a ser escritor em um país onde isso é praticamente um desafio ao Status Quo. Sei que o império vai cair e outro vai surgir. Porque há Hari Seldons trabalhando neste momento para isso, porque a psicohistória é um fato em alguma realidade alternativa. Porque autores podem ser maiores do que suas obras, mas serão estas que ficarão para sempre e serão adaptadas muitas e muitas vezes, relembrando o que nós já sabíamos e o que ainda teremos que descobrir. Isaac Asimov Vive! Que descanse em paz, o futuro já começou, prepare-se para ele.


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