Precisamos falar de Encanto - Danny Marks


Normalmente só indico filmes que considero, no mínimo, bons o suficiente para merecer um comentário por ter alguma coisa interessante de ser ressaltada, mas desta vez vou abrir uma exceção pelo inverso. Há coisas que precisam ser discutidas por causa do potencial destrutivo que possuem, na minha opinião, e que não podem ser deixadas “soltas” sem qualquer advertência nesse sentido. A ideia não é fazer um ataque ao filme, mas levantar questões potencialmente complicadas que, sim, precisam ser ventiladas para que sejam vistas de um outro ângulo. Por esse motivo, recomendo ver o filme antes (vou dar um monte de spoilers) para poder haver algum debate ou questionamento, até mesmo à minha perspectiva. Também vou usar uma ferramenta que tem sido muito mal usada e até deturpada por uma interpretação incorreta de sua função, o “lugar de fala”.

Lugar de Fala é uma ferramenta de análise discursiva que tem a finalidade de apontar de onde vem o discurso, no meu caso sou um escritor heterossexual formado em Letras, pós graduado em Alfabetização e Letramento, formado em ADM, Doutorado em Ciência Evolucionária (um estilo místico científico ligado à psicobiofísica) e autodidata em psicologia analítica e filosofia (pesquiso muito sobre a psique humana para poder compor melhor os meus personagens e apresentar seus conflitos internos e externos com um olhar mais isento possível). Sou também radicalmente contrário a todas as formas de racismo, homofobia e violência de qualquer tipo. É desse Lugar de Fala que faço este discurso e, sim, vou falar também sobre a relação de Lugar de Fala com a animação em questão. Dito isso, prossigamos.

A proposta da animação Encanto é em sua essência interessante e boa, basicamente trabalha com as variações do feminino, com seu papel no mundo e com a questão geracional, em que uma geração deve ocupar o lugar da outra em algum momento e assumir o comando das coisas para manter o que foi conquistado, reestruturar o presente e projetar o futuro. Como pode ser visto é uma proposta ambiciosa, delicada, interessante e que, se fosse bem desenvolvida, seria algo memorável, ao nível de outras animações produzidas pela mesma produtora deste. O problema é que, não sei se por descuido ou se houve intenção, Encanto apresenta sob uma narrativa fofinha, colorida, animada e até divertida, armadilhas e gatilhos pesados de um discurso racista, homofóbico, entre outras coisas que só vou pincelar aqui para não deixar o texto mais extenso do que o razoável para um entendimento inicial, um ponto de partida para reflexão.

A questão do Feminino fica evidente para um analista de discurso logo de cara. Os personagens masculinos são secundários e quase não aparecem, a ênfase é nos personagens femininos que são apresentados juntos e separados em estereótipos que, supostamente, dariam ênfase a suas características. Temos, por exemplo, a Avuela (avó) matriarca sisuda, justa, que dirige a tudo e a todos porque é a base da comunidade. Temos a mãe que cura todos com seus docinhos e amor. A Vaidosa bonitinha que usa seus encantos sem restrição. A Fortona, a ponto de ter bíceps quase masculinos e um corpanzil enorme, temos a Fofoqueira que ouve tudo à distância e conta para todos, temos a menininha que não tem poderes especiais, é desajeitada e que “estraga” as expectativas que depositam nela, mas leva de boas essa coisa. Há também características do feminino não tão evidentes, como a “Casita”, a casa mágica que está sempre ajudando a todos e protegendo a todos e, “não falamos de Bruno”, o homem que tem o feminino em sí, é sensível, artista, prevê o futuro e por isso tem um jeito gay de ser.

Conseguem ver o preconceito aí? Uma mulher forte precisa ser grande e ter bíceps masculinos? Um homem sensível precisa ser gay? Uma mulher bonita tem que ser fútil e sedutora? Uma fofoqueira? Uma avó tem que ser uma ditadora enrustida em uma capa de “sabedoria” (que se prova errada depois)? Eu poderia citar o menininho negro que ama os animais e fala com eles (São Benedito mandou lembranças, né?). Até mesmo a “casita” que encobre as rachaduras (arrumadas por Bruno, escondido nas suas paredes) é cheia de ratos e labirintos, coisas podres e cantos ocultos e sombrios onde aquilo que os outros não querem falar se esconde com vergonha de existir. E a menininha fofinha, a protagonista, que apesar de não ter poder algum, de ter que conviver com uma família que sistematicamente a exclui dos eventos importantes, mantém a sua fé na família e na comunidade e suporta calada todos os abusos porque, afinal, a culpa é dela de não ter nenhum encanto especial como os outros.

Vamos falar de preconceito racial? Que tal um grupo de refugiados que é perseguido até um outro país e lá recebe o “milagre” e passam a ter não apenas a segurança, mas desenvolvem dons especiais, “mágicos”, que DEVEM SER REVERTIDOS EM GRATIDÃO PARA A COMUNIDADE ONDE SE INSTALARAM!! Quem leu Torto Arado de Itamar Vieira Junior (recomendo muito) vai ver o discurso de “sejamos gratos pelos que nos escravizam permitir que possamos produzir para eles, trabalhando de sol a sol por toda vida, por todas as gerações, pela gratidão de terem nos dado o direito de morar em suas terras e nos deixarem, nas nossas poucas horas de descanso, produzir a comida e o sustento que necessitamos”.

Nem vou falar do racismo estrutural de apresentar os latinos todos como “chicanos” alegres e floridos, festeiros, um tanto quanto “rasos” no pensamento, mas capazes de grandes feitos para a comunidade, em contraposição aos latinos “riquenhos” que são meramente marginais dispostos a derrubar a sociedade com seus crimes, drogas, prostituição e etc, desses não falamos nem mostramos aqui nesta animação porque não são bons exemplos de latinos, terão seus filmes destinados a mostrar o quão horrível é sua existência. Aqui só os “bons latinos”, por favor. Quase até ouço o velho discurso “como assim racismo, tem até amigos negros na animação”, acho que já deu para entender o meu ponto, certo?

Mas além de todos os gatilhos e preconceitos embutidos que já pincelei aqui, para não deixar o texto mais longo que o necessário, há também a questão de que os homens são insignificantes (não falamos do Bruno, não falamos de gays) e a questão de que esse velho “milagre” precisa ser desmontado, porque não está mais funcionando, está apresentando suas falhas na estrutura e a “casa vai cair”!! Então precisamos de um novo “milagre”, vamos aceitar falar de Bruno, vamos mostrar que aquela nova geração tem um “milagre” diferente, e deve por sua vez substituir a anterior. Deve esquecer o passado, deve renegar suas origens e olhar para o futuro para então “poder ajudar a comunidade com seus dons mágicos recebidos desta terra encantadora que os acolheu, a qual devem ser eternamente gratos”!!

Eu disse que ia falar de “lugar de fala”, não disse? Então vamos a ele. Quem é a produtora desse “Encanto”? Uma empresa fundada por um homem que, supostamente, era simpatizante do nazismo (há controvérsias quanto a isso), que sempre vendeu um certo país como um “milagre” do capitalismo, capaz de “aceitar” estrangeiros em suas terras e lhes dar oportunidade de crescimento e riqueza que devem retribuir com gratidão pelo direito de morar. Esse é o “novo milagre”, aceitaremos os diferentes, aqueles que não falávamos antes, desde que façam o seu papel de ser “gratos ao milagre que receberam” e se coloquem nos seus lugares, então vai ficar tudo bem, do contrário vamos retirar o “milagre” e voltarão a ter o nada que trouxeram, o nada que vocês são sem o “nosso milagre”. Que fofo, não? Eis a armadilha e alguns dos gatilhos que estão sendo apresentados nessa animação de forma colorida, alegre e fácil de ser digerida pelas novas gerações. Se você não se incomodou com isso, ou já caiu na armadilha, ou é parte daqueles que acham isso um “Encanto”. É o que tinha a dizer. Saúde e paz a todos.

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