O Diabo com dois braços - Danny Marks

Há muitos anos, trabalhando na indústria, percebi que o Mercado estava ficando mais exigente em termos de currículo. Quando iniciei minha carreira profissional para almejar uma boa posição bastava ter um segundo grau (ensino médio), depois pediam técnico e já estavam começando a exigir o terceiro grau (faculdade) e até pós-graduação. Até então minha prioridade era garantir bom estudo para minhas filhas, sobrava pouco para investir na minha formação, mas necessidade não pede, obriga. Sempre achei que meu perfil não era compatível com administração, não sou do tipo que monta o próprio negócio, mas era a faculdade que podia pagar e garantir um diploma, e esse foi o início da mudança de rumos.

Estranhamente me dei bem no curso, fui eleito líder de classe (contra a minha vontade) por professores e alunos. Minha média geral foi de 9.8, mesmo tendo ficado muitos anos afastado da escola. Quando houve um concurso interno para uma vaga de auxiliar de RH, fui considerado super qualificado para o cargo, depois fui contatado pela empresa que aplicou o teste para uma vaga de headhunter, um tipo “caça talentos empresarial”. Agradeci e declinei, meus planos eram me aposentar cedo para poder investir na carreira de escritor profissional, ambos realizados, mas este texto não é sobre isso.

Este texto é para falar de dois perfis profissionais que o Mercado valoriza. O mais conhecido e valorizado é o de Empreendedor. Um empreendedor é um líder nato com capacidades de gerenciamento, alguém que sabe “vender o seu peixe”, com energia para realizar uma ideia e atrair investimentos na exploração de nichos negligenciados pelos outros. Economistas adoram empreendedores, são os caras que se arriscam abrindo trilhas na selva de pedra e sacodem o Mercado. Quanto mais altos os riscos, maiores os lucros, e a possibilidade de fracasso. O Mercado transforma tudo em lucro, sucessos ou fracassos viram “cases” para apontar para os próximos empreendedores quais as regras que sustentam o sistema.

Outro perfil, não tão incensado pelo Mercado, segue um caminho diferente. São os “Gerentes de Soluções” ou “Estrategistas”, nomes ruins para definir um perfil de profissionais que se adaptam a necessidade do momento e, diante de uma crise, trabalham para extrair soluções viáveis. É fácil identificar uma dessas pessoas, são aquelas que todo mundo pede conselhos quando as coisas estão indo mal, e não dão atenção depois que melhoram. Nas sociedades antigas recebiam nomes como “sábios”, “gurus” ou “shaman” e parecem ter uma aura meio mística, que normalmente é fruto de uma percepção acentuada aliada a um pragmatismo flexível. Dito isso fica a pergunta, é melhor ser empreendedor ou gerente de soluções?

Há um ditado popular que diz algo como: O diabo é ambidestro, dá com uma mão e tira com a outra. O Mercado se ajusta ao mesmo padrão ambidestro, ele oferece oportunidades, mas quer retorno em algum momento. Por isso as empresas bem sucedidas possuem em seus quadros pessoas empreendedoras, capazes de correr riscos e criar inovações, motivar os outros e vender suas ideias com entusiasmo e engajamento. Mas centralizam suas decisões de longo prazo em pessoas capazes de planejar e buscar estabilidade, prevendo riscos e desenvolvendo estratégias de organização.

A questão é descobrir em qual desses lados da equação você se encaixa melhor para poder aprimorar suas habilidades e acertar nas apostas. Um empreendedor quer acima de tudo a adrenalina do desafio, a satisfação da vitória, o sucesso e o brilho dos vencedores. Um gerente de soluções quer se sentir seguro e reconhecido pelo seu trabalho, quer se sentir valorizado pelo que é e livre para encontrar o seu paraíso de tranquilidade após a crise. Bem orquestrados podem compor uma das mais belas sinfonias de sucesso, com planejamento e energia bem dosados para que não faltem recursos, nem engajamentos. Separados, terão dificuldades para criar uma melodia. Adversários, vão criar caos e fracassar. Note que ambos são necessários e desejados pelo Mercado, mas uma boa aposta é saber onde estão suas potencialidades e como suprir as suas deficiências encontrando aliados complementares para o seu projeto de forma que possam crescer juntos.

Essa reflexão é necessária neste para um tempo que estamos lidando com uma crise sem precedentes (o aquecimento global e a pandemia) e a necessidade de criar um novo modelo que não pode se apoiar nos anteriores, mas precisa ser estruturado o suficiente para poder ser sustentável. E aqui apresento um outro ditado que diz: O diabo sabe não porque é sábio. O diabo sabe porque é velho. O Mercado é um diabo velho, vai continuar dando com uma mão e tirando com a outra sem se importar muito com quem cai ou quem se levanta, quer apenas o lucro. E aqui fica uma dica minha, a vida não é justa. Justiça é um conceito humano, a vida apenas é, se quer justiça, crie condições para ela existir, não espere que ela aconteça. Se você é empreendedor, busque um gerente de soluções para desenvolver estratégias. Se é um Estrategista, busque um empreendedor que transforme suas ideias em um produto vendável. O futuro não vai ser menos competitivo, mas aqueles que conseguirem criar pontes entre os diferentes é que vão escrever essa história. E nós, os escritores, apontamos os caminhos, não esqueça de comprar os meus livros para saber mais.



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