Quando foi que o Mundo acabou?




Em janeiro de 2020 as coisas pareciam normais. Havia fome provocada por desigualdade social, havia doenças de diversos tipos, havia guerras em vários lugares do mundo sob os mais variados pretextos e todos apontavam para o lucro. Havia excessos de todos os tipos: morais, religiosos, sociais, sexuais, ideológicos. Havia a extinção de espécies inteiras e o florescimento de lideres autoritários, havia o aquecimento global e o derretimento das geleiras, havia as queimadas em florestas inteiras e o aumento dos gases tóxicos na atmosfera. Havia até mesmo epidemias que matavam ou mutilavam crianças, jovens, adultos e idosos. Mas o mundo continuava normal, do jeito que nos lembrávamos dele. Com toda a sua desigualdade, com todo o ódio que cultivamos a favor ou contra esse Status Quo. Que venha o meteoro! Gritávamos indignados com os absurdos que não aceitávamos, como se não fossemos dinossauros e, portanto, sobreviveríamos a todos os outros retrógrados, incapazes de entender o que víamos em nossas certezas que não admitiam argumentos contrários.

Então a Natureza mandou um aviso, um vírus que nem é tão letal assim, há outros muito piores nesse sentido, mas este contagia com uma velocidade inacreditavelmente alta e colapsa os sistemas de saúde e as economias. Um vírus que se dissemina na velocidade da tecnologia, viajando em aviões, em metrôs, em aglomerações que desenvolvemos para nos sentirmos vivos, porque aprendemos a nos ver como uma massa de pessoas agrupadas por interesses, não mais como indivíduos em uma comunidade. Como todo os vírus, este também permite que alguns sobrevivam, para não morrer junto com o hospedeiro. Mata apenas os mais vulneráveis, deixa sequelas em outros que conseguem resistir, mas a maioria sequer sente os sintomas, tornam-se arautos do vírus, espalhando sua mensagem e sua prole por todos os cantos. Sem se importar com as nossas lutas de classe, saldos bancários ou ideologias, ele segue vivendo a sua vida que é crescer e se multiplicar em todas as criaturas que puder, quem não aceitar isso, que morra, paciência.

Somos obrigados a repensar tudo o que estávamos fazendo. As redes sociais que foram criadas para nos unir e que aprendemos a usar para separar, para disseminar o ódio e a desinformação, de repente se tornam nosso vinculo necessário para sobreviver mentalmente e fisicamente. Somos obrigados a criar laços virtuais imunes ao vírus para dar um abraço fraterno naqueles que antes ignorávamos. Oh, meu deus, a economia vai desabar e vamos passar fome e morrer! Do mesmo jeito que a economia fazia pessoas morrerem no auge de sua força, mas nos sentíamos imunes a isso. O problema nunca foi a economia, ferramentas não tem culpa de como são usadas, tem apenas a intenção do dono e seu uso pode ser corrompido facilmente.

Um vírus nos derruba de nosso altar de superioridade, de nossas certezas, nos desafia a nos entendermos para que possamos entende-lo. Faz supostos gigantes se ajoelharem de medo. Faz aflorar o melhor e o pior de todos nós, sem se importar com os resultados disso. Nos obriga a ficar no cantinho do pensamento como crianças arrogantes, mimadas, violentas, enquanto a Natureza toma conta do planeta e tenta reparar um pouco do estrago que fizemos. Limpa o ar, diminui o aquecimento, devolve habitats aos animais, faz brotar flores e frutos para alimentar abelhas e pássaros que antes morriam aos milhares com os agrotóxicos.

É claro que isso não será para sempre. Em um esforço verdadeiramente global as pessoas e os governos tentam se ajudar como podem para sobreviver e superar essa pandemia. Alguns já sabem que o mundo como conhecíamos acabou e que não vamos poder voltar ao que era. Mas, deveríamos? Apesar dos milhares de mortos que já temos, deveríamos voltar ao ódio coletivo, às guerras, à fome provocada pela economia que querem salvar a todo custo? Um vírus trouxe um recado da Natureza, pensem no que estavam fazendo a si mesmos e façam melhor da próxima vez, porque pode ser a última oportunidade que terão para fazer deste mundo um lugar melhor para todos. Com uma economia que não separe as pessoas em camadas, achando que algumas valem menos que as outras. Se começarmos a pensar que a vida humana, qualquer uma, não tem valor, então não podemos reclamar quando a Natureza ouvir a nossa resposta e nos pôr para dormir, foi a nossa escolha.

(Danny Marks)

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