Blues

September 26, 2019

Memórias são mentiras que inventamos, mas lembro-me da primeira noite que apareceu e sentou ali, no tamborete. O terno desgastado com traços cinza, do cigarro, olhar direto de mar negro. Naquele tempo as coisas não andavam fáceis para ninguém.

Ele ficou ali com as mãos sobre o balcão que acabara de limpar. Coloquei o cinzeiro abaixo da brasa e então perguntou:

— Pode me dar uma bebida?

Não se encontra caridade em um lugar como este, só o fato de estar sentado respirando o mesmo ar viciado que os outros clientes já o obriga a pagar, mas não sei o que me deu, lhe servi um trago. Então, pegou um instrumento da bolsa e começou a tocar uma música.

Clientes começaram a aparecer como moscas atraídas pelo odor que emanava dos acordes que aqueciam os lábios e suavam os olhos. Uma música qualquer, alinhavando tristezas em uma colcha que nos cobria juntos na desgraça.

Quando amanheceu a música ainda ressoava, aliviados de colocar fora o que estava agarrado em dor. Nenhum aplauso ou conversa perturbava as brumas que o cercavam.

Nunca soube de onde ele veio, qual seu nome. Não perguntei para onde ia. Foi assim por um tempo, sem dúvidas ou respostas. Até que eles vieram.

Uma noite igual outras recentes, casa cheia, corações vazios, a gente se acostuma fácil com isso. Três deles, com ternos amarrotados se apossaram das cadeiras naquele canto ao lado dele. Sacaram instrumentos de suas malas e começaram a tocar. O que já era sublime e se tornou insuportavelmente lindo.

Memórias são mentiras e a música ainda ressoa nos meus sonhos, mas ali estava a mesa vazia. Cortei a fumaça da noite e corri no desespero do abandono. Não havia mais traços deles ou da música, apenas farfalhar de asas. Quatro pássaros azuis voavam contra a lua que se deitava no céu de chumbo.

Fiquei parado olhando, minha alma lavada, ligeiramente amarrotada, mas pronta para o uso. Acendi um cigarro e voltei as costas para outro dia.

As noites nunca mais voltaram a ser as mesmas, aquela mesa jamais voltou a ser habitada e as memórias...

Memórias continuam a ser mentiras que inventamos para nos proteger do que não queremos mais sentir.

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