El Diablo - Cap 02 – Vingança

December 26, 2017

 

“Amor...palavra fácil na boca de uma mulher. Vocês o vestem com a mesma facilidade que se despem.”

 

          Madame Bovary conferiu pessoalmente as trancas de sua casa. Sempre dizia aos criados que era devido ao hábito antigo, as vezes até se convencia dessa mentira, mas no fundo sabia que ainda temia.

          Alguns clientes “especiais” pernoitavam com suas amantes nos quartos exclusivos luxuosos, todos os outros eram conduzidos à porta no final do expediente.

          Ela sentia-se cada vez mais fraca e velha, gostaria de ter morrido há muitos anos, mas fora salva para cumprir uma missão.

          Sentiu o peso do medalhão do dragão que trazia pendurado no pescoço desde que haviam tentado roubá-lo. Em sua casa era o lugar mais seguro para estar, escondido sob os brocados. O peso parecia maior a cada dia que passava em sua busca infrutífera. Chegara a pagar alguns espiões para que encontrassem o destinatário que a redimiria de sua promessa.

          Desesperava-se ao pensar na morte premente sem que tivesse cumprido a sua missão. As vezes podia sentir a própria morte a bater-lhe na porta.

          Os socos fortes na porta a tiraram do transe. Quem poderia ser a essa hora?

          _ Está fechado, volte amanhã mais cedo. – Gritou para a porta fechada. Um tremor frio lhe percorreu a espinha.

          _ Diga a Dona Bovary que El Diablo bate à sua porta e tem pressa. – respondeu-lhe uma voz do outro lado.

          Não era possível, tantos anos e agora ele a procurava?

          _ Qualquer um pode dizer ser quem não é.

          Uma pausa do outro lado

          _ Somente El Diablo conhece o coração do Dragão – retrucou a voz.

          _ Segredos podem ser arrancados a ferro e fogo. Vá embora e nunca mais volte ou se arrependerá.

          Outra pausa do outro lado. Teria ido embora?

          _ Nenhum segredo pode ser arrancado daquele que perdeu a alma por amor – disse outra voz. Esse timbre, essas palavras, só podia ser ele.

          Apressou-se a abrir a porta e deu de cara com os dois homens. Deu um gritinho de susto e recuou ao ver o enorme lobo que estava junto do homem de preto, os olhos faiscando como brasas na noite.

          _ Não se assuste senhora, é meu amigo. Não faz mal aos meus amigos. – disse-lhe o homem de preto.

          Ela o olhou atentamente, os cabelos brancos ainda mantinham um resto do loiro de outrora, e os olhos dele, duas gotas de orvalho congelado.

          _ Señor Santiago. El Diablo.

          _ De onde me conheces, mulher? Não me recordo do teu rosto.

          _ Ninguém lembraria de uma prostituta faminta que foi acolhida por uma nobre dama em sua casa e protegida até que nem mesmo a dama estivesse mais.

          _ Qual seria o nome desta nobre Dama, senhora. – Diablo se aproximou um passo e a mulher recuou mais um pouco.

          _ Eleonora. Filha do Duque de Hais. Aquela que perdeu a vida, mas não o amor. – respondeu Bovary

          _ Amor...Palavra fácil na boca de uma mulher. Vocês o vestem com a mesma facilidade que se despem.

          Bovary deu um tapa no rosto do cavaleiro. Lobo começou a rosnar.

          _ Não deveria arriscar sua mão assim, mulher. Da próxima vez lhe arranco o braço – disse Diablo exibindo o seu sorriso animal.

          Bovary recuou mais um pouco.

          _ Desculpe-me, não posso ouvir insultos a quem devo minha vida, ainda que esteja morta agora.

          _ A verdade não é insultuosa. Eleonora se dizia apaixonada, até encontrar melhor refúgio nos braços de um clérigo.

          _ Mentira! O bispo a subjugou pela dor. Ameaçou matar o seu amado se não se entregasse a ele. Estuprou-a noite após noite, tentando vencer-lhe as forças.

          _ O Maldito! – as mãos de Diablo se crisparam, os dentes rangendo de fúria – Disseste que ela morreu. Como foi?

          _ Giacomo a manteve prisioneira em sua própria casa e forçou-a a se lhe dar todas as posses, então, soube que estava grávida e a tratou melhor achando que o filho lhe pertencia. Eu cuidava dela como ama de quarto. Mas quando a criança nasceu era loira. Ele soube quem era o verdadeiro pai. Ficou furioso e a vendeu como escrava para uns mouros que estavam de passagem pela cidade. Eleonora não suportou a dor. Tentou matá-lo, mas foi morta por ele.

          _ Não posso acreditar nisso, que provas tem? – Disse Diablo, pálido.

          _ Ela me pediu para encontrar Santiago e lhe dizer que sempre o amaria, e lhe dava o fruto desse amor para que o protegesse com sua vida, como ela tentaria fazer. Sempre esperou que voltasse, mas nunca mais voltou.

          _ Fui emboscado! Levado para longe em navios de escravos. Quando consegui fugir já tinha perdido a alma. Pensei que ela não me queria mais.

          _ Ela o amou até a morte, suportou todos os suplícios à sua espera. No final só lhe restava este colar. – Bovary tirou o colar e o deu ao homem de preto.

          _ Então, eis o medalhão! – Disse o marinheiro velho que acompanhara Diablo e escutava atentamente. – Dom Giacomo vai gostar disso.

          Os pelos de Lobo se eriçaram ao mesmo tempo em que uma rede lhe caiu em cima tolhendo-lhe os movimentos.

          O Marinheiro velho sacou a faca e investiu contra Diablo que parecia entorpecido pela visão do colar. Dois outros homens entraram na casa com as armas em punho.

          Bovari tentou fugir, mas uma faca foi cravar-se em suas costas derrubando-a.

          Diablo desviou do golpe que lhe era destinado no ultimo segundo, agarrando o pulso do homem e forçando o braço a voltar-se contra as costelas do dono cravando-lhe o punhal entre elas. Empurrou o cadáver sobre os homens que avançavam sobre ele desequilibrando-os.

          Diablo saltou sobre o mais próximo como um felino e segurando-lhe os braços musculosos, abocanhou a garganta rasgando-a com os dentes.

          O outro já se desvencilhava do cadáver do marinheiro e recuperava a faca que havia caído quando viu o homem de preto com a boca cheia de sangue, os caninos vermelhos, a avançar para ele.

          _ Agora é sua vez, desgraçado.

          O Homem largou a faca e saiu da casa correndo como se o próprio diabo estivesse atrás dele.

          Diablo foi até Lobo que se debatia na rede e o ajudou a se livrar dela.

          _ Pegue-o. Mate!

          Lobo saiu no encalço do fugitivo.

          Diablo foi a te a mulher ver o ferimento, mortal com certeza. Limpou o sangue da sua boca. O colar ainda estava na mão dela.

          Ele apertou o fecho secreto e o compartimento se abriu. Um chumaço de cabelo loiro amarrado com uma fita. Um pequeno pergaminho com um escrito.

          “Para Santiago. Do meu amor para o seu, até a morte”.

          Um barulho no alto da escada, uma das mulheres levantara para ver o que ocorria. Ao ver Diablo debruçado sobre o cadáver de Bovary começou a gritar.

          _ Socorro, ladrão! Socorro, acordem, ladrão!

          Ele fechou o medalhão e se lançou pela porta aberta montando no cavalo que o esperava lá fora e saindo a galope. Não poderia perder mais tempo. Agora tinha um objetivo na vida. A começar pela vingança.

 

 

 

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