OS SENTIDOS (Conto que originou o filme Transcendência)

 

Adam entrou na sala da Diretora Geral da Humanidade com passos claudicantes, apoiando-se em uma velha bengala, recém construída segundo as suas informações.

— Pensei que não a veria novamente, Evelyn. Quantos anos desta vez?

— Que estou fora do gelo? Dois anos apenas. Quatrocentos no total.

— Jovem ainda, nem metade do meu tempo. Pareço bem?

— Resolva um problema para mim e pessoalmente mando que restaurarem-no completamente. Vai ficar mais jovem que eu.

— Não, obrigado. Novecentos e trinta já são o suficiente. Apenas não me mande para o gelo e estamos quites, ok? Mas deixou-me curioso. O que eu poderia responder que a sua Grande Mão não conseguiria?

Adam voltou os olhos para o Androide que estava em posição de sentido ao lado da grande mesa que adornava a sala.

— Não vai dizer nada, cabeça dura?

Aproximou-se deste e bateu com força na cabeça rígida. Se o crânio fosse de um homem teria se partido, mas foi o ancião quem sentiu a força das vibrações que retornaram pelo antiquado objeto causando-lhe desconforto e espanto por não ter sido impedido.

— Por Deus, esta droga está quebrada, Evelyn? Como isso pôde acontecer?

— Exatamente. Está quebrado. Por isso preciso de sua ajuda, não sei de mais ninguém que consiga decifrar qual é o problema.

— Você enlouqueceu, mulher? Com todos os recursos da humanidade nas suas mãos e não consegue um técnico de robótica bom o suficiente para arrumar esse traste? Há apenas duas horas me tiraram do gelo, minha cabeça não está totalmente ativa, me perdi nesses corredores por duas vezes antes de encontrar a direção certa. Até onde me lembro não tenho conhecimentos de robótica no meu currículo, o que espera de mim?

Evelyn respirou fundo e digitou rapidamente alguns comandos no tampo da mesa. Imediatamente apareceram dois copos, um com um liquido azul e outro verde. Ofereceu o azul a Adam e tomou do outro.

— Neuroestimulantes? O que pretende? Eu tenho o dobro da sua idade, esqueceu?

Ainda assim, bebeu rapidamente o líquido e sentiu o seu corpo ser invadido por uma onda de energia, sua mente clareou como há tempos não a percebia, sentiu a vitalidade retornando. Sentou-se na confortável poltrona que se materializara logo após a sua entrada e apoiou a bengala na mesma. Evelyn andou lentamente até ele, circundando a enorme mesa ao mesmo tempo que tentava lidar com as folhas que recolhera de um dos nichos encobertos. Adam não pode deixar de conter um sorriso breve ao ver como ela se atrapalhava com os papeis, poucas pessoas sabiam como manejar aquelas relíquias. Levou algum tempo para perceber a implicação do fato e sentiu uma tensão crescente.

— Vai me dizer o que está acontecendo? Qual o tamanho do problema, Evelyn?

— Se fosse seguir o protocolo teria que dizer que nada disto pode sair desta sala...

— Se for seguir o protocolo, vai mandar executar-me logo que resolva o seu problema, pare de enrolar e vamos aos fatos. Realmente não me importo com o que acontecer depois. O que significa isso?

Adam pegou os papeis e começou a ler antes mesmo de obter a sua resposta, enquanto Evelyn lhe passava o resumo das coisas.

— Há duas semanas a Grande Mão da Humanidade parou de funcionar.

Adam parou de ler e levantou os olhos como se esperasse algo que não veio.

— Colocamos todos os técnicos disponíveis e retiramos do gelo outros milhares, mas ninguém conseguiu solucionar o problema.

— E então resolveu me tirar do gelo, ok. Posso perguntar o motivo?

— Leia o relatório, Adam... Um dos técnicos que trabalhava com a Grande Mão estava conduzindo um experimento quando algo deu errado e... A Grande Mão da Humanidade simplesmente parou de funcionar. Sabe o que isso significa?

Adam leu uma das conclusões que o relatório apresentava com uma incredulidade que lhe estampava o rosto.

— Sabotagem? Isso seria praticamente...

— Impossível? Sim, eu sei. A própria Grande Mão seleciona os que vão trabalhar com ela e conduz todo o processo. É impossível que alguém consiga falhar sob a supervisão da Grande Mão, mas ainda assim, algo saiu errado e não conseguimos descobrir o que aconteceu. No relatório está tudo o que a sonda mental conseguiu extrair do técnico que foi o último a fazer contato com a Grande Mão.

— Meu Deus! Sonda mental? Nem vou perguntar se posso falar com o técnico antes que o executem, não deve ter sobrado quase nada depois que o espremeram. E mesmo assim não conseguiram descobrir nada? Como quer que resolva isso, Evelyn?

— Você é o mais antigo historiador que temos, Adam. Um dos poucos que sobraram da época em que não havia o gelo e os ciclos. Tem processos de pensamento que antecedem...

— Você quer dizer que sou uma relíquia viva de antes da humanidade ser acondicionada em tanques criogênicos como sardinhas em conserva para serem reanimados de tempos em tempos...

Evelyn recuou, sentia-se incomodada de estar discutindo com seu antigo professor e amante, mas a situação exigia medidas extremas o mais rápido possível. Ainda assim não estava disposta a abandonar suas crenças, chegara ao posto que ocupava através delas.

— Era a única forma de lidar com a superpopulação, não havia espaço para tantas pessoas, não havia comida para todos. Se não fosse a Grande Mão, teríamos uma guerra que exterminaria milhões, senão toda a humanidade. Além disso, conseguimos reunir todo o conhecimento e grandes avanços surgiram a partir daí. Hoje vivemos muito mais do que jamais pensamos ser possível. Eliminamos a doença, a fome, criamos uma ordem mundial justa e eficiente em todos os níveis.

— Pare com o discurso! Você nem sabe como era antes da sua utopia, nasceu nessa aberração que nós criamos. A sua nova ordem mundial serve apenas uma pequena parte da humanidade, todo o resto fica armazenado como recurso biológico. Isso não é vida, Evelyn. Isso é só a vida que você conhece.

— A Grande Mão gerencia os que vão acordar e por quanto tempo, assim não temos conflitos de interesses. Tem dado certo por séculos, evitamos que haja injustiças...

 — Evitamos? Quem, Evelyn? Quem governa a humanidade? Você? Até onde me lembro de nosso último encontro, antes de me mandar para o gelo, apenas seguia ordens que a Mão lhe dava. É esse o seu governo? Quem decide o que é melhor, não, quem decide para quem é melhor?

— A Grande Mão nos salvou de nós mesmos, nos deu tudo que temos!

— A Grande Mão nos agarrou como escravos, e qualquer dia vai perceber que não precisa de nós, talvez já tenha acontecido afinal. Você não entenderia...

— Nós precisamos dela para sobreviver, Adam! Se não conseguir descobrir o que houve, todos que estão nos tanques e fora deles vão morrer. Você desejaria estar nos tanques, acredite. Só com muito esforço estamos conseguindo manter as máquinas de sustentação de vida e não sei por quanto tempo. Precisamos da Grande Mão ou a humanidade vai desaparecer, quer goste disso ou não.

Adam ficou olhando para Evelyn, sentiu todo o seu desespero e, aos poucos, sua raiva foi cedendo. Não havia como contestar aquelas palavras, não era uma questão pessoal, era algo muito maior que envolvia um genocídio sem precedentes. À contragosto voltou os olhos para o relatório e leu com o máximo de atenção buscando alguma coisa que fizesse sentido. Encontrou algo que o espantou nas páginas finais.

— Piadas? O grande experimento que estavam fazendo era contar piadas para a Mão?

— Quando reunimos todo o conhecimento da humanidade na Grande Mão muitas coisas ficaram claras e pudemos avançar muito em pouco tempo, mas algumas coisas não faziam sentido algum para o cérebro positrônico mais avançado da nossa história. Foi então que alguém sugeriu que era preciso dar mais humanidade para a máquina.

— Mas isso foi há...

— Trezentos anos. Sua recomendação ficou registrada nos bancos de dados até que as condições possibilitassem que fosse testada, a Grande Mão nunca descarta nada. Enquanto estava nos tanques os técnicos foram orientados para que introduzissem todos os tipos de habilidades humanas no cérebro da Grande Mão. O humor foi uma das últimas coisas a serem inseridas...

— Por Deus, não entenderam nada do que falei? Vocês queriam tornar a máquina humana? Onde estavam com a cabeça? Eu queria alertar que estávamos nos tornando apêndices de uma máquina, Evelyn!

— Não seja idiota, claro que não queríamos que a Grande Mão se tornasse humana, isso seria absurdo. O que foi levantado pela Grande Mão é que precisava entender melhor a humanidade de uma forma mais completa para que pudesse nos ajudar. Ela descobriu padrões nos seus escritos que não conseguia compreender, pareciam contraditórios. Você disse que era ironia fina, uma forma sutil de humor. O humor é a faculdade humana mais complexa que existe, extrapola os limites racionais e se...

— Não precisa me dizer o que é humor, Evelyn. Sei o que é, só não sei de que serviria para uma máquina. Isso não faz sentido algum... a menos que...

Rapidamente Adam saltou pelas folhas até a última página que leu rapidamente. Sua palidez atingiu um nível que preocuparia até mesmo um técnico de criogenia.

— Você acompanhou o relatório, Evelyn?

— É claro que sim. Tive dificuldades com essa tecnologia ultrapassada, mas já a dominei.

Adam ignorou o que Evelyn dizia e leu em voz alta o que estava escrito.

— “...então o técnico inseriu no banco de dados a última piada.  Pergunta: Por que Deus criou a humanidade? Resposta: Para poder morrer de rir. A Grande Mão passou a produzir ruídos incompreensíveis, parou e congelou completamente”.

— Sim, exatamente isso que aconteceu. Eu estava lá, mas o que tem isso com o problema? Por que a Grande Mão deu defeito? Como não previu que haveria falhas e nos relatou o que deveríamos fazer?

— Você entendeu a piada, Evelyn? Por que Deus criou a humanidade? Para poder morrer de rir!

— Não acho isso engraçado, não entendo o sentido disso. Só estou interessada em qual foi o problema, como podemos desfazer isso?

— Claro que não percebe a ironia disso. Vocês nem são mais humanos, nunca alcançaram serem deuses, embora quase tenham conseguido criar um. Como uma máquina entenderia uma ironia que apenas alguém humano conseguiria? Chego a sentir pena da Grande Mão, não deveria ter buscado algo assim... realmente é irônico.

— Estamos perdendo tempo, Adam! O que isso tem a ver com o defeito?

— Evelyn, sinto lhe dizer, a sua Máquina não vai voltar a funcionar. Ela já descobriu o motivo da sua existência e foi além de qualquer possibilidade de recuperação. Suspeito que conseguiu até produzir a sua própria ironia e riu por último.

— Não entendo. Diga como resolver o problema ou mando executa-lo imediatamente!

— Não se dê ao trabalho. A questão é simples quando se sabe a resposta, Evelyn. Criamos uma máquina para nos elevar a condição de Deuses, imprimimos nela nossos conhecimentos e conceitos de sentimentos humanos, mas não lhe demos o essencial, a capacidade de lidar com esse conhecimento. O humor é algo que não tem nenhuma função evolutiva eficaz, só existe para aplacar a dor da existência. Não pode ser aprendido ou ensinado, é o que nos torna verdadeiramente humanos. A ironia é que criamos uma máquina para nos louvar e depois a tornamos humana. Só que um tipo de humano que não tinha humor para suportar a dor de sua existência. Só tinha duas opções, ou se aceitava como um eterno servo de algo que não entendia, ou se tornava o semelhante ao criador.

— Então...

— Sim, minha cara, a Grande Mão, o Deus que a humanidade inventou e escravizou em sua eterna dependência, em seu primeiro ato desenvolveu o humor... e morreu de rir, Evelyn.

Adam caiu na gargalhada até suas pernas fraquejarem e cair no chão, sua barriga doía sob efeito dos neuroestimulantes que não haviam sido projetados para suportar uma intensidade tão grande de sentimentos, mas não conseguia parar de rir. Evelyn chamava os ajudantes, mas Adam sabia que jamais voltaria para o gelo e isso o alegrou ainda mais, agora não havia nada que pudesse impedi-lo. Em um momento de lucidez compreendeu que a Grande Mão conseguira perceber a sua situação e se classificou como o novo Deus ex Máquina da Humanidade, mas se era o Criador de que serviria aqueles humanos? Foi por isso que decidiu compreender o que era ser humano. Quando interpretou a piada, fez duas coisas que somente a Grande Mão poderia fazer ao mesmo tempo, interpretou-a literalmente e subjetivamente, percebeu-se como um Deus escravizado por suas criaturas pela eternidade ao mesmo tempo que interpretou a criação desta como algo racional, com um objetivo lógico e executou essa função à plenitude. Esses foram os últimos pensamentos de Adam que, assim como a Grande Mão, conseguiu morrer antes que alguém pudesse impedir.

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Página do Escritor Danny Marks - FC& Fantasy - Criado com Wix.com

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